21/12/09

Vitor é um boneco .

Um boneco de plástico, Vitor é amarelo, vestido com roupa apertada e de cabelo bem penteado.

Dentro de uma caixa aberta no topo, para que se lhe possa mexer, Vitor espera saudosamente por uma carícia.

Se por entre a abertura superior da caixa lhe tocarmos na cabeça, em vez de ronronar como os gatos de pelo, em vez de chorar e pedir "dá a pápa, dá a pápa", em vez de fazer bolinhas de sabão como as estúpidas bonecas de borracha, Vitor, de plástico rijo, fica excitado a limites das suas calças rasgarem e a caixa deformar.

Vitor é um boneco triste.

Ninguém até hoje o levou para casa, é um boneco muito caro.

Nas lojas onde se vendem o Vitor, todos os empregados e visitantes curiosos lhe passam a mão na cabeça. Riem-se em gritos ao verem as dimensões do tesão do boneco. Vitor vai tomando forma, a caixa embacia.

No exterior da caixa do Vitor está escrito a vermelho pecado "O feitor das quentes e húmidas felicidades", no entanto, o rijo boneco nunca cumpriu a sua missão. Vive fechado em paredes de cartão cheio de febre. Nunca se veio ao mundo.

Hoje pelas notícias soubemos que Vitor está prestes a sair da lojas e quiosques. Acaba de chegar às praças comerciais o fresco Jonh, sem caixa, um boneco de vinil macio e de cabelo rapado que quando se lhe toca na cabeça, mexe as mãos com excitação, ao mesmo tempo que se saliva como bonecas estúpidas, ronrona, como os assanhados gatos e diz em sussurro, como um telefonista erótico, "dá ao bébe, dá ao bébe".

19/12/09

A avó traz sempre consigo, dentro do bolso do avental, um lenço branco amarrotado.

Embrulhado no lenço, um corno pequenino.

Dentro, do corno oco pequenino,

uns gramas de coca

"é para as horas de aflição meu rico filho".


Na beira da porta o sol da tarde pedia sono.

Deixei que a avó adormecesse.

Meti-lhe a mão no avental

apalpei o lenço, agarrei-o sem lhe tocar nas pernas

deslizei a mão, bolso a cima, com o lenço,

afastei-me da porta.

abri o lenço e o corno,

cheirei a coca,

não guardei o corno,

não amarrotei o lenço nem o tornei a colocar no bolso do avental.

Sem controlo no corno, nem no lenço, nem em mim, caí no chão de olhos arregaçados.

A avó acordou,

levantou-se,

viu-me o nariz empoeirado,

não me falou.

Tornou os seus olhos em olhos de cadela aflita,

baixou-se,

mostrou-me a língua e lambeu-me o nariz.


24/11/09

As sopas da Rosário são de lágrimas,

as minhas de burro cansado

de a ver chorar

23/11/09

É mágico o poder do falo: transforma as ideias e os corpos; um santo graal que tudo justifica como Verdade e, ainda uma imagem metafísica mais que incógnita.

Alguns procuram-no incessantemente como a um troféu, ao passo que outros, ao encontrá-lo, rasgam-se e enforçam-se com medos e preconceitos.

O falo ainda é algo mágico, algo que, como naturalmente natural, sempre que é mostrado provoca tensões. Um super herói ainda duro como um menir que se tenta ao céu e lá por vezes chega.

A aguentar as intempéries de qualquer estado do tempo, o falo ainda existe.

20/11/09



Meias secas,
Sapatos ensopados,
Calos raspados,
Calcanhares esfolados
Rosa peregrina

Saia levantada,
Cuecas, sem elas,
Pernas abertas
Rosa peregrina

Lábios vermelhos,
Olhos pintados
Rosa peregrina

Vinte e cinco moedas,

vendida.
Rosa peregrina

06/10/09

:

Senhora, é quase inverno;
são horas de se por a pé,
de tirar dos pés as meias borbotadas e 

num banho
enxotar água abaixo as ideias piolhentas.
Depois, aqueça as coxas uma contra a outra,
raspe as costas com uma manta bem rija e
limpe as remelas que a cegam.
Permita-me senhora:
antes que a época das chuvas chegue e a mele em lama,
passeie pelas ruas secas enquanto é tempo.
É quase inverno senhora; por si temo.



:

28/09/09



Na mesa de cabeceira tenho cinco garrafas de cerveja vazias.

A pintora veio dormir a casa.
Dormiu bebida pelo fermento da cerveja e nos embalos dos meus braços.
Já acordou, não sorriu.
Nos seus sapatos rasos enfiou, em bico, os pés.
Na mão direita uma mala castanha que chocalha. 
Uma mala presa aos dedos de unhas gastas, iguais aos das galinhas velhas.
Voltou à mesa de cabeceira. 
Fiz-me de morto. 
Guardou as tampas das bebidas e correu ansiosa.  
Abria os braços para espalhar o resto do sono. Chocalhava a mala em jeito de guizo, bateu a porta, saiu. 
A pintora já não pinta, colecciona santos de barro e faz-lhes chapéus com cápsulas de cerveja.

27/07/09

As mulheres más estendem-se pelo chão.
Pela raça do corpo dorido e de pele seca que escama e se desintegra,
tornam-se falsas fadas, magos rudes, invisíveis ratoeiras nas nossas grandes florestas.
As mulheres más espalham-se pelo chão e, juntas, procriam ervas daninhas que impedem os caminhos.

19/07/09


Nas mãos viu o vazio

ao ler as linhas do amor e das vidas cada vez mais pequenas.

Pertencia às escolhidas para ser vivente de uma vida sem amor,

ou de amar abrasivamente, pelas esquinas dos dias, sem viver.

Como uma em cada mulher de cada família, de todas as famílias,

é uma mulher sem amor ou dos mortos. Tocou-lhe a si.

Sabia-o pelas mãos pequenas que pegaram do mofo uma fotografia. Olhava a fotografia.

Os tios e as tias numa idade de saltos altos misturavam-se numa mancha única como com as duas árvores e a sé por trás.

Uma imagem borrada de negro, aqui e acolá aclarada pela pouca luz do passado.

Olhava a fotografia e via o relógio da torre sineira, da torre de uma fé que já não reza, que parou, que perdeu os ponteiros.

No centro, bem no meio da imagem a sua pequenez, ela.

Ela menina de vestido longo sem quaisquer folhos de alegria perdida numa névoa negra prestes a cair.

Bastar-lhe-ia um sopro para que se fizesse mais perdida que o tempo.

Uma imagem perdida num dia sem horas, uma imagem moída onde os rostos dos tios e das tias e dos ponteiros fugiram dela,

uma imagem que lhe revelou uma mulher sem amor e sem vida.

No meio, bem no centro, sozinha de rosto nitidamente caído num vestido sem folhos nem flores de menina,

sozinha mesmo no dia em que engoliu pela primeira vez o corpo de cristo.

Sozinha menina olhava a fotografia e perdia-se sufocada no negro dorido da fotografia que lhe ia apagando as mãos.

14/07/09




Ainda me fervilham as axilas pelo sal das marés . 

Sorria do teu bailado circense enquanto berravas o nosso nome,
Gritavas
e desaparecias nos flocos brancos da água partida.
Os faróis egoistas acendiam-se e procuravam o nosso amor. Como te rias disso.

Fizeste com que todos os barcos levassem e trouxessem o nosso nome na proa. 
Lembras-te? 
Nós nos barcos, nós pelas marés rebentadas.
Sonhavamos que éramos mais que nós em cada rasto de espuma, 
que éramos barcos e fragatas inteiras em arraiais e em folia.


Com a certeza  que nos encontraremos em sorrisos no resto que nos resta, 
revelo a todas as praias o nosso poema.
Hoje espero que a maré suba, que me fuce os pés e dê sinal que me esperas.
Catarei todas as vagas, por este mar a dentro, até que a carne arrefeça
e para longe faça bulir o que agora é só memória.
Espero que a maré suba.


24/06/09

De manhã o sol não entrava pela janela como era costume. As nuvens rasteiras andavam por ali a espreitar, pelas redes enferrujadas, os galinheiros e os ovos frescos. Por ali, ao contrário das noites, os dias não costumavam ser tão bonitos.
O colchão ainda estava quente das esfregadelas havidas na noite anterior. Húmido, mas não totalmente húmido que fosse resultado de ter levado alguém a entrar na glória dos orgasmos.
Teriam sido interrompidas as finais erupções leitosas quer do cliente quer da filha da caseira?
Em forma de estrela, por trás do pipo grande, uma pequena porta secreta prendava pela sua passagem todos os clientes como o tesão que faz qualquer osso ranger de ansiedade. Para um buraco transformado em quarto, de braço dado, Marta arrastava consigo, pela porta em estrela feita, um casto pecador. Era a entrada no céu. Um céu onde o prazer e os temperos da carne eram acima de tudo os brindes mais requintadamente oferecidos. Sem necessidade de qualquer chave a filha da caseira tornava-se amor desde a entrada até se despedir do casual amante com um beijo. Um céu de madeira, embebido em sabedoria e testosterona, onde o deus e senhor era uma mulher que abria bem as pernas. Não se julgava nem mais nem menos puta que as outras putas todas, no entanto, não se condenava em absoluto pelos afazeres a que se propunha, fazia-se mais luminosa por cada ida àquele céu. Dada a internacionalização do poder da sua abertura de ancas e do interesse em ser mais feminina que a Marilyn Monroe aprendeu a falar inglês e a calcular o diferencial entre as taxas de juros activas e passivas dos grandes bancos europeus. Marta, por visitar o céu várias vezes ao dia, era a mais bela e amada mulher feita na terra.

Esfregavam-se há horas.

Entre as virilhas, nos cabelos, entre os dedos e nas gangas das pernas rebentavam de loucura.

Ambos em cada abraço apertado, à luz de um candeeiro manhoso, cuspiam um fogo mais luminoso que o fogo preso dos arraiais.

Sem que por qualquer momento lhe tirasse a mão das costas, que o empurrava para cima, tapou com o cabelo os olhos para que ele não a visse a prestar serviço comunitário.

Ludibriante, igual às mulheres dos calendários, ela fazia fintas de paixão. Fintava a presa como as rateiras viúvas negras.

Dançava ali achatada sob o peso horizontal do homem, trincava-lhe os ombros e o queixo, beijava-lhe a ponta do nariz e os lábios, dizia-lhe palavras obscenas como nos diários de Bianca enquanto o controlava nas estocadas e no ritmo. Por baixo de si o colchão sujo e encovado de muitos meses. A tirana sorria de olhos fechados àquele cobertor peludo de 83 quilos enquanto amassava violentamente o colchão. Com os joelhos, uma perna e mais outra, fazia as calças dele deslizar do corpo.

A respiração acelerava, os moncos do nariz dele pendiam gordos a prometer uma queda a qualquer momento sobre a maquilhagem Cibelle dela. Já e prazo de se babar, o cavalo abriu os olhos, afastou-lhe o cabelo do rosto com uma arfada, viu-lhe os olhos e arrepiou-se em contracções. Colou-se com toda a força no corpo dela, esperneou em chicote e disse-lhe que a amava.


Uns noventa anos no lombo e os dentes do marido, feitos em brincos, nas orelhas.
Suzete, era a mulher que viu Salazar a fugir entre os arcos da biblioteca principal quando rebenta o golpe de estado.
- Já engoli muito lixo menino - disse-me ela esfregando a barriga que lhe içava o avental.
Sou do tempo em que os olhos eram das lágrimas enquanto comíamos do mesmo prato.  Sabe lá o menino o que isso é. Já ouviu falar de amor e incerteza?

Trazia no pescoço um terço, preso nele a imagem do sagrado coração de Jesus e um S. António. Nos dedos, vinte e cinco anéis, distribuídos ainda às escuras por alturas da tímida madrugada.
Suzete é uma mulher saciada de histórias e adereços.  
O marido tinha sido um dos guardas de Salazar que ficara sem os dentes durante a fuga de abril . 
DIz-se que embatera numa das colunas duras e rijas  que ainda hoje, ali, assistem a tudo. 
Pelas suas marcas, aquelas barras, contam ainda hoje histórias de fugitivos, desaparecidos e desdentados.
Os dentes foram encontrados e hoje eram os brincos de Suzete.
- Ó menino; soubesse eu do meu marido para lhos tornar a pôr. 

O marido de Suzete tinha desaparecido pelo meio da multidão disfarçando com os seu casaco as feições de Salazar.
- Sabe que ouço por aí dizer que o presidente ainda é vivo e quem enterraram foi um dos seus colegas de poker? E olhe que o meu marido não sabia jogar poker. Abençoada burrice dele nos naipes para me fazer mulher com esperança.
Já me cambaleio, como vê menino, mas ainda o espero.
Cambaleio não por estes anos me terem secado as lágrimas, mas por ser uma mulher ausente do amor do qual só o sei desdentado.
Pela insistência dos toque do telefone, sabia com certeza de quem vinha a chamada. – Está? preciso falar contigo, estás ai? (gritou) – sim (respondi-lhe eu ao grito), podes falar. Sabia pela sonoridade da sua respiração que a conversa seria longa e trituradora do meu tempo. – Então é assim… Arrepiei-me, como eu detesto quando alguém inicia uma frase que seja com a expressão, “então é assim”. Fugi. Desliguei-me daquele telefone. Desliguei-me de mais uma história habitualmente bizarra com necessidade de descodificação por parte de psicanalístas. Entre setenta e nove discos escolhi um de capa verde e pus a tocar, coloquei os auscultadores nos ouvidos prensando o máximo as orelhas, ia ouvindo uma voz arreliada bem ao longe, bem no lado de lá da linha telefónica, nem uma palavra entendia, a música quase me fazia cantarolar. Controlei-me. Abri umas revistas, li e reli todas as letras gordas e semi-gordas enquanto tirava ideias para umas fotografias, viajei aos locais onde as fotografias seriam feitas, escolhi a hora do trabalho, calculei os valores aproximados de intensidade luminosa, escolhi as personagens e apresentei-lhes por e-mail o projecto, responderam, aceitaram, escrevi a pedir uns apoios… -Estás ai? (estremeceu-me) -Sim, (respondi-lhe eu ao berro em Dó de uma última oitava). Continua, estou a ouvir-te Beatriz. Continua.. Tirei os auscultadores, virei-me para um parede branca do escritório, dei-me pronto a um pouco de atenção, pelo menos a uma das partes do telefonema, não me fosse perguntar alguma coisa, alguma opinião. Seria inédito, no entanto apromei-me, prometi-me ficar atento, quem sabe, o assunto, desta vez fosse algo realmente importante. Pondero sempre a possibilidade de um telefonema importante feito por si, por isso a atendo. Basta um pequeno deslize de inocência a Beatriz Maria para que todos os seus momentos sejam apneias obstrutivas às suas conhecidas ideias de mudar o mundo. Esta é a realidade que a faz fazer-me constantemente chamadas. Quando Beatriz Maria decide tornar um momento seu de desespero num momento, para si, razoavelmente feliz e ainda assim as coisas se lhe apresentam pela mais rasa medida, Beatriz Maria liga-me, liga-me todos os dias, para me informar que se lhe rasgou a alma como se tivesse sido violada por um habitante do Congo. Sempre a considerei uma senhora, mas nunca uma senhora que se rasgasse ao ser violada. -… por agora, – diz-me já a cuspir-se – prefiro não acarinhar, nem apostar em nada que me possa sair em desastre. Decidi ser velhinha por uns tempos e tomarei só como frente de ataque as minhas felizes certezas. Uma mulher madura que abandona qualquer sentido de esperança, julguei eu. -Serei uma velha idosa aos trinta e dois anos e que decidiu trocar o risco pelo medo que o diferente me pode propor, consegues entender? (fingi que sim) – sim claro! - Podes escrever aquilo que te digo, tornar-me-ei a partir de hoje traidora das minhas certezas. Desisto de estratégias para as mudanças, serei a amante do cómodo e da passividade …(desligou a chamada). 
Beatriz Maria, adultera e corcunda Beatriz Maria. 
Assim te escrevo como pediste.

10/06/09

Desbravaram o terreno, escavaram o monte.

No lugar dos pinheiros os camiões e o pó eram sempre presentes pelos dias e pelas noites.

Cada dia, naquele monte a casa crescia desvairada. Decomposta naquele lugar uma casa grande de paredes altas, a casa dos pinheiros desaparecidos.

Um valado florido, uma oliveira, uma escadaria brilhante, uma casa.

Os camiões iam embora, o pó assentava e os peregrinos dos sofás, das cadeiras e camas, das loiças e talheres, das roupas e das grandes pinturas entravam na casa feita, faziam-na maior, destemida. Nasciam portões, isolava-se. A relva em rolo desenrolava-se, a oliveira deu meia dúzia de azeitonas. Uma casa grande. Na casa dos pinheiros desaparecidos vivia gente que não imaginava que ano depois de anos corridos a tinta descascava, a oliveira iria secar e novos peregrinos apareceriam para recolher sofás gastos, velhas roupas encardidas, loiça em cacos, fogões e frigoríficos enferrujados, enquanto que, pelas telhas o soalho ia sendo regado. A cozinha seria negra, o corredor largo tornar-se-ia estreito e manchado por décadas de apalpadelas de gordura trazidas pelas mãos dos velhos guiar-nos-á à sala, a uma sala sem tecto, de soalho podre e fértil pela decomposição dos habitantes lá mortos. Ali na sala nascerá um pequeno pinheiro e deste outros grandes pinheiros mais largos, de novo um monte, um monte.

27/04/09

Estendia-se feminina na quase maior cadeira de todas as cadeiras do castelo.

Estava morta na sala onde havia uma outra mulher que estava morta noutra cadeira ainda maior.

Como todas as mulheres mortas, aquelas eram belas e femininas. Mais belas ainda.
Ocupavam a sala, as mulheres, desde os pianos até às janelas estreitas
O sol dourado, vindo delas cravava-se na pele fazendo-as estendidas em brilho.
As mulheres mortas serão sempre mulheres maiores, como as salas vazias
não precisam de cadeiras altas, e largas, e tronos, e de gente a cirandar.
Querem-se sempre grandes em maiores ares.
Na sala da música eram duas mulheres e muitas cadeiras.
Estendiam-se gordas de beleza pelas franjas dos vestidos.
Eram rainhas mortas, mulheres maiores,
como os pianos pretos depois do concerto das suas vidas.


Era costume clara vestir-se para abrir a janela e
mostrar-se enfeitada de eufóricos contos e histórias.
Ontem abriu a janela despida de qualquer capítulo letrado. Abriu a janela nua para que descobrissem o quão importante são os nadas das frases, dos parágrafos, dos livros. 
Rendeu-se à verdade das interrogações dos poemas mais tristes e exigentes do tempo, das reticências triplamente batidas, das pausas mudas, dos brancos bélicos do silêncio.
Deixou-se cair em sombra nos braços do adeus, enviou um beijo aos muitos que do terreiro a viam,
deslizou. Serpenteou pelo parapeito a dentro e para lá da janela desapareceu, calou-se.
Nos espaços lisos dos livros plantar-se-á clara
para que nas noites e pausas das leituras todos se lembrem dela.


21/04/09

Só me falas agora dos sapatos novos que te deram,

das línguas estrangeiras, das fotografias e dos postais,

das loucuras do rapaz que pela noite dentro te saturaram

e da responsabilidade estragada de quem se esquece de ti.

10/04/09

Como gostei da última carta 
e da parte em que me ameaças 
morder pela raiva, 
por um pequeno ódio, 
por te ser calado, talvez. 
E porque não te quero perder,
dar-te-ei o corpo aos dentes.


09/04/09

Nestes dias todos não me vejo com ávida clareza para escrever aquilo a que tinhas direito. Não sei se falar de mim, de um triste e qualquer personagem ou do volume de umas grandes mamas fartas. Estão-me escuras as ideias claras para as palavras. Traquinas e teimosas, escorregaram às escondidas até aos púbicos e cerrados caracóis. Pela sua pequenez e pela manha de um cansaço fingido adormeceram às gargalhadas na sombra mais fresca do apagado lampião.

08/04/09

De entre as coisas que se apoderaram das outras coisas que se deixam apoderar,
como as violentas dunas movediças que morrem pelas
potências incondicionais à grandeza dos segredos do vento,
as vacas começaram a cuspir folhas de livros nunca lidos.

30/03/09


Maldito vento gelado, ali nos lados de Belém.
Valeu de nada a ida e de pouco menos a volta.
Prémio EDP NOVOS ARTISTAS. Bate-se nesta exposição records de incongruência levada por sua vez ao estado da parvónia. Perdoe-me a autora das "telas" que ali se apresentam, telas ditas pintadas a tinta e outros materiais. Senhor, senhor, s. Judas Tadeu, advogado das causas impossíveis, a culpa não é da menina, nem das peças, mas de quem as seleccionou.
Fazem-se cartazes e espalham-se por todos o país, fazem-se out-doors de anúncio, reveste-se o edifício da EDP com a informação de uma exposição bacoca que só serviu para  matar, à força toda, alguns dos seleccionados. 
Não acreditam? bilhete gratuito, passem por lá e façam-se deparar com a verdadeira amplitude provocada pela qualidade e o medíocre, passando pela réplica, é valente e estupefactante.
Fosse eu gente com poder monetário a adquirir alguma das peças, ou mesmo membro do júri, a escolha como peça vencedora cairia na "fita organicamente ondulada, um género de corrimão deliciosamente torneado, mais que escultura um desenho tridimensional que percorre um espaço imenso de uma das salas, em papel e ferro. Sim, meus senhores, essa para mim subiria ao pódio do lugar primeiro, mas dada a insólita selecção que ali se apresenta não ficarei de todo surpreendido como o que quer que aconteça. 
Agora um recado, pequeno, pequenino, aos senhores responsáveis pelo prémio em causa: cuidado com o que seccionam, um dia a surpresa bater-vos-á à porta e a própria EDP ficará sem luz por tempo indeterminado.



26/03/09

Treze horas. Uma correria esbaforida. Os dois pés dentro do comboio.
"O comboio com destino a Santa Apolónia que se encontra estacionado na linha azul, irá dar inicio à sua marcha."
Lugar 12, corredor, posei as malas, posei os ombros no encosto do banco e os olhos na paisagem.
Lugar 11, janela, jornal aberto, desportivamente hardcore e uns braço peludos que se apoderavam do meu pousa-cotovelos.
Desviei os olhos da paisagem que não era grande coisa e, gamei umas letras gordas ao jornal do lado, "belenenses na mira de accionistas", sem importância.
Lugar 15 e 16, "sabes que a Rute da isaurinha foi operada às varizes? - claro, bem precisava, da maneira que trazia as pernas quase pareciam troncos de pinheiros aos grumos.
Lugar 12, ganhei o pousa-cotovelos e o espaço para poder escrever o quanto gosto de ti.

24/03/09

Adormeci, e, por já ser tarde encontrei-me com Salomé.
"ando deprimida, deixei de fumar", nem da carta falou; se a chegou a enviar ou se ainda a têm aberta para tornar a ler. Não quis saber. Acendi um cigarro, precisava de encontrar a melhor forma de justificar a minha falta, nem a ouvia, tinha muito que fazer como encontrar alguém que me certificasse com rubrica sub-carimbada em declaração escrita, onde dissesse: "Declaro que a falta relativa à manhã de hoje, do senhor em causa, se deve ao facto do mesmo ter estado presente na elaboração e planificação do projecto "Corpo Adormecido", o qual, à luz de investigação científica servirá para apresentação pública em palestra subordinada ao tema " Gente faltosa, Gente manhosa". Sendo isto verdade e na qualidade de seu orientador apresento desde já os melhores cumprimentos. (x)"  
Sem pingo de mentira, serviria.
Salomé inalava o fumo do meu cigarro como quem engole o cheiro de terra acabadinha de molhar. Calou-se. Procurava o consolo pelo fumo e esfregava o peito que soltava prensados ais.
Na esplanada do pequeno almoço éramos pela brisa fresca da manhã dois pequenos deprimidos, ela pela prolongada ausência de nicotina, eu por ter dormido em tempos de expediente.

22/03/09



Ai sim? Ai sim Arnaldo sempre vieste?
Por onde tens andando que ninguém te vê? Estás gordo e com boa pele, olha-me esse relógio que fenómeno e o carro é mesmo assim ou kitaste-o?
Foda-se, que bomba do caralho, puta que pariu a máquina em que te tornaste, já pareces um político ou um chulo da república, sei lá...

20/03/09

O Vinagre desceu os três degraus do alpendre. Era hora.
- Olá estás bom?, preciso de falar contigo. Vais ser tio, engravidei a tua irmã. Disse-lhe eu de rajada antes que me respondesse ao facto de estar bom ou não.
Azedou, o vinagre ficou com a expressão muda que só os figos secos têm. 
O Vinagre é forte e robusto e diz-se por aí, como se disse sempre, que quando abraça o que quer que seja enrola, esmaga e mata as presas mesmo que não tenha intenção. Senti medo, ir-me-ia asfixiar num abraço até á minha lufada final. Deixaria um filho no mundo sem pai. Um pai que tivera sido morto pelas tenazes do seu próprio tio. Vi a laje do jazigo " por um abraço, o seu fim".
De repente aquilo que eu temia. O abraço. Abraçou-me. Um abraço longo e apertado. 
Mesmo correndo o risco de perder a vida não fugi, não arredei pé do quarto degrau do alpendre. Seria ali que findaria a minha paixão, a incongruência do perigo, seria ali que eu mesmo findaria. 
Por causa do vinagre conheci a sua irmã, por causa do Vinagre... engravidei-a a pensar no Vinagre.
Respirava, ainda sob a alçada de uns grande braços respirava. Estava ali de pé, vivo, frente ao sorriso dele e a uma ladainha sobre as responsabilidades de se ser pai e sobretudo, evidente, de se ser pai de um sobrinho dele. 
Deu-me um beijo e outro e mais outro, prometeu copos, garrafas e garrafeiras inteiras de loucura. Fazer-se-ia uma festa. Hoje uma festa.
Mais logo o vinagre e eu sairemos, vamos comemorar. O Vinagre brindará ao sobrinho e pedirá um futuro de sorte e saúde à criança. Eu, brindarei também para que não pareça mal, mas em segredo, erguerei os copos bem altos como a promessa de ter mais filhos, de ter mais beijos e abraços do Vinagre.

19/03/09

ao meu pai, a mim.

Hoje, o calendário acordou-me. (pi pi pi pi). Sim o meu calendário apita.
Há um recado que se desperta anualmente, "é dia do Pai", diz a voz mecanizada de um robô que nem sabe o que um pai é, um dia em que os verdadeiros e falsos católicos se juntam e jantam e brincam e oferecem presentes coloridos e dão beijos babados aos pais. Os pais riem-se porque se devem rir, e agradecem pela obrigação de agradecer lembrada pelos seus calendários de serem ou terem sido filhos agradecidos. 
Não suporto calendários estipulados e agendas inflexíveis. No entanto e porque sei que gostas, peguei no espelho, ou melhor, peguei em mim e no espelho, peguei no testamento, abri-o, abri os olhos, abri as lembranças de herdar de ti o sangue, o formato do rosto e dos lábios e como dizes o feitio de um louco irrequieto. Abracei o espelho, abracei-me a mim enquanto sabia que me espreitavas e rias à espera do meu rouco "Bom-Dia".

17/03/09



Estou sem sono e não durmo como muita gente que tem insónias. Eu não quero dormir como as pessoas que tem insónias e se não quero dormir desse modo consigo não dormir de modo algum. É que em dias como este acabo por não dormir e até mesmo ficar sem sono.


16/03/09



Franz von Stuck, Salomé, 1903, Lenbachaus, Munique


Salomé está apaixonada por um homem casado e não é casada com este homem casado. 
Dorme pouco e não toma café, atira-se nas viagens e nos delírios de se imaginar abraçada entre lençóis a falar sobre a sua paixão pelo homem casado com o homem casado.
No pequeno almoço de hoje, num dos meus pequenos almoços de segunda feira, Salomé apareceu e contou a medo que já tivera feio chamadas anónimas ao homem casado. Queria-lhe ouvir a voz, queria saber o ritmo da sua respiração para a poder sincronizar com a sua. Escreveu, hoje ainda muito cedo, uma carta anónima para lha enviar que releu e afinou até à hora do pequeno almoço, não fechou o envelope, queria ainda poder ler e reler mais umas vezes o que hoje se tivera tornado declaração feita. "não quero que leia esta carta e que dela tire ideias erradas, preservo o sentido da família, mas também preservo a minha sanidade emocional. Estou apaixonada". Afirmava a sua realidade tal como as gotas que lhe escorriam dos olhos o faziam.
Mesmo sem saber quem ela é, Salomé, tem medo que ele largue a família, portanto considera assim a hipótese do homem casado se apaixonar por desvaneios anónimos e por uma mulher que é o próprio desvaneio em carta escrita.
Vive apaixonada de manhã à noite, já não come às refeições, perdeu o relógio da razão. "vivo com esperanças que me ligue e que descubra que estou apaixonada sem eu lho dizer, será possível?" com receio, perguntava-me. Pondero que sim, pondero que as paixões são mais visíveis que as montanhas, mas fico em silêncio, não lho digo. Seria apenas um ouvinte que não tece opiniões tal como foi o papel branco que recebeu a sua história de amor anónima.
Quando se cruza com o homem casado, Salomé transpira, fica gaga e fala mais alto, fica com gases e dilata-se-lhe a barriga.
("está?... quem fala?....") - "atende-me quando lhe ligo anonimamente, sabes? é uma voz tão bonita, tão bonita, mais bonita ainda que ele, imagina...". E imaginei à luz do que aprendera em tempos na catequese, a voz de  Deus, um trovão.
Acabou o tempo do pequeno almoço e Salomé nem tocou no pedaço de pão que tinha à frente. Está apaixonada e ridícula como os apaixonados.
"hoje passarei pela sua porta por obrigação, levarei uma roupa larga para que não se note a minha barriga que dilatará, levarei um chiclete na boca para que não me seque a garganta e não gagueje caso me cumprimente..." dizia-me quase sem mexer os lábios em quando punha as moedas sobre a mesa para pagar aquilo que não comeu.
Salomé saiu e leva consigo no bolso a carta anónima dentro de um envelope ainda por fechar. Prometeu que ainda a iria ler mais uma vez, não vá aquela carta chegar às mãos dos filhos do homem ou à sua mulher, mãe dos seus filhos, que a roubaria, por certo para uso próprio, um dos mais belos manifestos de amor a um homem casado que poderia deixar de ser seu.

12/03/09



por aqui não há dia em que não se espete um prego.
ó vizinho tenha lá consideração, por este andar, dadas as ondas sísmicas que provoca com o batente, ainda lhe ganho o vício e fico com parkinson.

11/03/09


preciso urgentemente de um presente.
de um presente, tido na "morte do momento ". a fotografia.
logo que puderes presenteia-me, preciso de um dos melhores nomes da fotografia portuguesa.
antónio julio duarte, desta vez.

aguardo, com as transpirações da ansiedade, por este trabalho.


09/03/09

isto mais parece um blog político...
não quero, não permito.
champagne, champagne for everyone

Já chega, não faz sentido.
Já não se suporta mais que se fale exaustivamente, na Europa, dos dias internacionais da mulher.
A mulher já tem aquilo que outrora contestava não ter, e o que lhe faltar será pouco. A todos nós homens nos falta também. Portanto, ponto final.
O pior é que, sempre que se fala do dia internacional da mulher, rebentam notícias foleiras. Põem-se crianças, jovens, adultos a descrever o que é a Mulher e o pindérico começa a florir. Já lá vai o tempo em que realmente as reenvidicações e os festejos sobre esta temática tinham razão de ser. Hoje é fazer-se o tempo de antena gasto.
Já chega de festas sobre este assunto, até porque, sem qualquer intuito de ofensa, as mulheres são quem lançam os foguetes e quem corre para apanhar as canas.
Se tudo isto for para dar exemplo, para ser testemunho dos bons resultados das reenvidicações que há uns anos fizeram em Londres e se espalharam pela Europa e que agora são os meios de educar, informar, esclarecer e abrir as mentes ridículas de "políticas anti-mulher" ainda em vigor por muitos países, muito bem. Mas façam esses programas, teses, livros, e anúncios chegarem a eles e , por aqui, não nos massem mais. Nós por cá já estamos muito esclarecidos e ao que me parece começamos a ficar fartos.
Não será pouco inteligente falar-se hoje de grupos feministas? assim como de qualquer grupo dito minoritário?
Mas afinal o que é uma minoria? Não serão todos os pronomes pessoais uma minoria?
Caros meninos e meninas somos todos menores e se pudéssemos ter todos um dia internacional, nacional ou mesmo regional que fosse estandarte das nossas próprias políticas, tínhamos no calendário e em agenda até o dia internacional da enxaqueca.
Sim, eu respeito a mulher, respeito os gatos e os pombos, respeito o sapateiro e o dirigente de qualquer sindicato, mas que cada um se meta na sua vida e faça dela um bom, excelente exemplo a quem dele precise. Não serão necessário procissões nem cartazes, os Interessados, comungarão dos vossos princípios à mesma.

08/03/09

As assembleias da república estão a ficar desesperadas.
Quem sabe o segundo semestre consegue dissolver este desespero, o que não me parece. As assembleias hoje só servem para receber manifestações nos seus átrios, fazerem acreditar o povo que lá dentro não existe ninguém e que todos os dias são fins de semana.
A Dona Helena, empregada na assembleia da república portuguesa, com um cargo de responsabilidade médio, diz não conhecer o desempenho no trabalho dos políticos.
Que caralho. Ora se, uma funcionária presente diariamente aos srs presidentes, diplomatas e sem diploma faz vénias e sorrisos custosos não consegue ter acesso a qualquer desempenho trabalhistico da política portuguesa, como poderá avaliar estes senhores e senhoras se só abrem a boca quando se encontram nas orgias parlamentares camufladas de metáforas e intrigas pessoais até aos seus dentes.
Segundo a Dona Helena "só oiço gemidos". Pobre mulher. Avaliadora por natureza, nem consegue entender uma palavra sequer do que por lá se diz, "todos rugem e chiam". Já não falam.
Receiam serem avaliados no seu desempenho por uma ou outra qualquer plebeia sabedora das realidades da vida deste país à beira mar plantado e do bem pago que é ser por não se fazer nenhum enquanto cortam e riscam com um lapinhos azul pequenino. Já ninguém rega o que se plantou. O que se quer e tem é mato e ervas daninhas.
Caros manifestantes dos átrios das assembleias, entrem para lá do átrio, as assembleias são nossas e não das repúblicas, recrutem a Dona Helena e façam dela a vossa bandeira.
Acreditem que não ficará vermelha de vergonha nem verde de raiva. É uma senhora. Como a própria diz, "as senhoras e os senhores de hoje já não são coloridas". Até a bandeira se entristece: as cores desmaiaram, já estão secas por falta de rega.

03/03/09

Fecha a porta Jorge não vá o diabo tece-las.
Já te disse que as correntes de ar e o pó dos pinheiros te fazem mal. 
Limpa lá o nariz que já tens ranho suficiente para alimentar por semanas o primeiro batalhão da polícia militar.
Fecha a porta Jorge, no próximo aviso vais a marchar.

28/02/09

Como é que é possível, com meia dúzia de post´s  já haver interessados em fazer deles um "livro"?
Quando a esmola é muita os santos já nem desconfiam, dão gargalhadas.
Caros senhores, um livro é coisa séria, e em português pouco de sério se tem feito.
A casa da frente está à doze anos em altas remodelações.
Berbequins à sexta à noite, ao sábado martelos e arrastões e nos domingos da parte da tarde aspiradores.
Fim de semana de sossego em casa, não me lembro. Bem que tento.
Vou ao supermercado comprar farinha e fazer-me padeiro, talvez me sossegue o rum rum da máquina de fazer pão que ganhei.




uma voz com cheirinho de jeff buckley, sempre bom.
Bom dia.
Hoje o céu encontra-se muito nuvelado, porém, sem probabilidades de aguaceiros. Temperaturas a rondar o 12 graus. Um carro enfaixado no gradeamento e já arrefecido. Um pequeno almoço quentinho. 
Vesti as calças escuras e fumei um cigarro. 
Troquei a viagem a Madrid por um fim de semana de pasmaceira dentro de casa e sem o relógio no pulso. Porque também me mereço desligarei os telemóveis e serei só para mim.

27/02/09

Ando meio baralhado. 
Não sei  se gosto da ideia de me começarem a tratar por "senhor".
No tempo do meu pai, pelos vistos, a coisa era um título que honrava qualquer esposa.

Dançaste muito ou isso são só os joanetes?

26/02/09

Quinta feira 26 de fevereiro.
Não tenho champanhe para brindar o facto de ter este dia chegado ao fim.
Hoje, como diz o português, dei mesmo ao dente. Trinquei migalhas de ideias, gastei caminhos e escadarias em caracol, viajei sem fazer "check in" quando olhei para mim ao espelho. Triste figura a daquele tipo que quase lhe estendi esmola.
Um saco a desprender-se do ombro, os ossos da carne e os pés se desatarrachavam das pernas.
Como pode alguém fazer um dia deste e ainda conseguir receber abraços impostores.
O que me valeu foi ter transpirado pelas acelaradas rotações por minuto , essas já , desportivas e a uma velocidade por mim bem escolhida. Purguei os males,  comprei um disco e pus as pernas ao alto enquanto decifro a letra manhosa da música.

25/02/09


ÚLTIMA HORA
acabo de ler isto no Público:

A PSP apreendeu livros com quadro de Courbet na capa por alegadamente serem "pornográficas"

VIVA O RIDÍCULO E O LÁPIS AZUL.


até o Cónego Melo acharia isto uma afronta à imagem literária.
Palavra que compro, hoje mesmo, o livro.
não é que o dia está para as brincadeiras todas?
raia o sol, cheira a iodo e a folhas por rebentar.
hoje meto o dia. 
não trabalho. 
vou-me entreter a escolher a primeira coisa a fazer.
acariciar as virilhas? pode ser que seja um bom princípio.

24/02/09

Voltei, depois de umas horas em viagens, cá estou de novo.
Querido diário; hoje ao almoço, apesar da mais que melhor companhia, apeteceu-em enfiar a cabeça de doze pessoas dentro do seus respectivos pratos das sopas.
Como é que é possível, um almoço conseguir estragar o resto do meu dia estando a comida em óptimas condições? Ainda oiço a cabeça a estourar por cada folículo capilar.
Eram doze. Doze galinhas em saltos agulha a tentarem gritar umas mais que as outras ao som das trombetas carnavalescas de filhos vestidos de anjos e palhaços. Doze mascarados, uma família que ocupavam uma mesa em L no restaurante que escolhi.
Mesmo que vindas directamente do circo mais próximo da delinquência sempre existiram aves raras com falta de ética e respeito por quem partilha o mesmo capoeiro. Comi um bife de lombo acompanhado de salada de pimentos regados aqui e ali com molho português, pena tenho não ter sido as moelas das galinhas da mesa do lado regadas com molho de saliva da minha raiva.


23/02/09

Passo já a informar que este post é a dois. As duas pessoas que nele contribuíram nem se conheceram pessoalmente, porém, certamente o achariam interessante na sua publicação. Vejamos. Um padre, um padre afirma que o pecado inicia quando damos a conhecer o prazer ao corpo. O princípio, do principio, é na infância, pelos rebuçados, depois "vêm os ovos com chouriço e depois as meninas decompostas pelas mini-saias". Ora foda-se, se assim progredimos na escala do pecado, o que será que acontece se a isto juntarmos os 3 estádios freudianos, (prazer em sugar, de defecar, e de friccionar os genitais), que acontecem desde os primeiro dias de vida? Estamos perdidos logo desde pequenos. No entanto, acrescente-se que, quem em pequeno aprender a arte de bem sugar, a arte de devidamente defecar e sobretudo de se auto-friccionar acrescida à teoria do padre na prova dos rebuçados será o mais belo contemplado pelos verdadeiros sabores do prazer.

21/02/09

Desculpem, vim de fim de semana e nem me despedi.
Querem que vos traga alguma prenda? Prometo embrulhos originais e um brinde com champanhe.
Um aparte 1 - Isto do champanhe parece coisa maricola, no entanto, apesar de não ser uma bebida por mim muito apreciada, para o brinde não haverá certamente refresco mais indicado. Minto?
Um aparte 2 - Gosto das taças, das taças largas e baixinhas onde eram servidos os espumantes na altura da minha infância. Lembram-se delas, certamente! Expirimentem e avaliem a diferença do mesmo champagne servido numa flute ou numa taça. Quem sai vencedor? E não me venham os enólogos dizer que a flute é mais apropriada, dado que, a altura e a largura do corpo do "copo" são as mais necessárias características para catalizar os aromas, as notas da serra e das raizes, tal como, o refinado borbulhar.
Viva a taça que, até pelo som mais aberto e menos manhoso do seu brinde, ganha à flute.

champagne, champagne for everyone
por mais que não queira, sou obrigado a ouvir e mesmo a falar sobre política.
onde chegamos, pessoas como eu, pessoas que em absoluto não entendem nada sobre regras de política camuflada, a discursar e a levantar questões que até hoje só foram feitas em teses de Pós- Doc.
chiça, ainda a procissão não saiu da capelinha e já estamos fartos dos santos e dos seus andores.

19/02/09




ordem, por ordem por favor.

se queres que te coma põe o dedo no ar.

18/02/09

procuro patrocínios para viver em viagem.
só lhe disse boa noite, e viu-o a desaparecer por entre os carros estacionados.
sabia-se que tivera escondido a aliança que era costume trazer no dedo.
sem aliança, disse-lhe boa noite.
pode aquela "boa noite" ser expressão de galanteio?
enquanto senti a moça apaixonada confidenciou-me que espera por outra noite de dedos inchados.

16/02/09


já que não me quero constipar novamente, quero uma destas.
porra, preciso mesmo para levar para umas reuniões... que fique em acta.

15/02/09



Na hora do lanche acabei por não lanchar, passeei longe das sombras das casas e quase fiquei moreno. Mais logo vejo o que faço, se vejo um filme de terror, se arranjo quem me ponha um after sun ou se dou por terminado o fim de semana. As obrigações, de preparar os dizeres da semana e as coisas a entregar aqui e acolá, exigem. Mas, antes de tudo irei lanchar e ouvir duas músicas que tenho aqui penduradas bem perto das orelhas. Se entenderes depois falo-te delas.


13/02/09

depois de forrar o estômago com um café e de fazer circular a lingua sobre a foleira política portuguesa, fechei a minha sexta feira séria. 
concluo que a politica é para adultos e felizmente não é para todos.
como não sou adulto e sou parte do "todos" vou de fim de semana.
fica aqui um ratado teledisco bem caseiro. imaginem; realizado por quem?



um abraço e uma sapatada no rabo.

11/02/09





meto-te o dedo no cu e faço de ti uma ventoinha.





uma queda livre;


do fotografo francês Denis Darzacq 2005/6 que já ganho o world Press photo em 2007. Olé

Nao dá para ver, mas ao que parece estes gajos nus, são do melhor que há; têm penas.

bombócas, bombócas para toda a gente
Isto de andar sempre a pedir prendas por vezes resulta.
Desta vez foi um presente que era meu por direito.
Vim contente, cheguei a casa mais rápido.
Agora vou ver as pernas à Lara e o cu acolchoado dos ciclistas. Volto já.

10/02/09


E porque estou com o pingo no nariz posso te pedir um presente?
Aqui vai; o "extinguy my eye" de rui chafes.
Tenho mesmo o espaço que a peça  precisa.
É obra pertencente de uma  grande Colecção na Dinamarca, posso sempre passar por lá.
Sim, existe outra peça parecida com esta e cá em Portugal. Mas eu quero esta.


Acho que tenho soro fisiológico a sair pelos olhos. Ao desentupir o nariz acho que apertei demasiado o frasco. É a terceira vez neste inverno que fico as narinas entupidas. Foi no que deu andar aos beijos com os pés descalços, queria ser romântico. 
Já que nem isso posso ser, amanhã levo os sapatos novos.



09/02/09

Hoje confundiste gentileza com algo mais que gentileza. Que medo.

08/02/09

Domingo, uma da tarde; acabo de ter um orgasmo maravilha, e porque os orgasmos maravilha são só para quem os merece vou ligar a Barack Obama, pelo número de votos, também o merece.

orgasmos e champagne for everyone.
Acaba de chegar um presente. Não é nenhum daqueles que pedi, mas um que seria um próximo pedido, seria.
Ainda bem que te lembraste. Gostei muito.
"O presente: Uma dimensão infinita" catálogo BESart.

Porque é que não tenho um grande mastro para dele tirar o meu anel peniano e oferecer-to como pulseira?

03/02/09

cortei as unhas dos pés.
já que não posso voar, não tenho que parecer uma águia real.
A estas horas costuma haver muita gente?
Sim, às segundas-feiras, por esta hora é sempre mesmo colapso de pernas.
Riu-se.
Enquanto se ria, pensava baixinho o quanto aquela pronúncia me fazia lembrar Agosto.
Os primos e as tias dos meus amigos e dos amigos deles que de França chegam esbaforidos de trabalho e da viagem a falar francês melhor que os franceses.
Não és de cá? Perguntei na esperança de ouvir, "sou de Lyon, de Paris" .
Não, hoje é mesmo o meu primeiro dia cá. Cheguei cedo, cheguei durante a noite. 
Confirmava-se. Veio de vez.
Sou de Mirandela, orgulhou-se.
Pensei nas alheiras e nos fumeiros, sorri.
Conheces?
Para mim, uma Laura Palmer.
Não lhe respondi com medo que julgasse que trás-os- Montes seriam mesmo atrás dos grandes montes do meu conhecimento do território nordestino. Sorri novamente.
Virou costas. Ao afastar-se percebi-lhe as nádegas rijas bem encaixadas nas coxas de quem trepa diariamente altas serras.
Deixa passar a neve, um dia destes passo por lá, saiu-me numa voz fincada de galo de campo na certeza da ida.
Já lá ao fundo acenou como que aprovasse a ideia. Não se voltou, não sei se sorriu.

ao lado