08/03/10

Não gatinhei nem andei na pré-escola.

Quem cuidava de mim, enquanto os meus pais iam trabalhar, era uma ama. Desde os nove meses que fui entregue a outra mãe e por estranho que pareça não me lembro de ter sentido estranheza em ter duas mães.

Até muito tarde chamei mãe à dona Gloria, mesmo até quando já não era minha mãe.

Porque a dona Gloria tinha quatro filhos, um rapaz e três raparigas e porque os filhos dela, lhe chamavam mãe, eu também, em embalo, lhe decidi chamar.

Desde manhã até à noite esperava pela minha mãe verdadeira e pelo doce, embrulhado à pressa na hora de expediente, que sempre trazia. A minha mãe sempre trabalhou muito, até mesmo nas divagações que fazia quando tinha tudo feito.

Aos cinco anos fui para a escola.

Era o meu primeiro encontro com uma manada de rapazes e raparigas da mesma idade, sentados em cadeiras, em pasto sobre livros e cadernos que se estendiam sobre as mesas numa sala muito diferente da minha.

Quando eu chorava de saudades da minha mãe, ou dos doces ou dos beijos, a mãe Glória, dizia-me: quando fores para escola e vires a entrar na sala uma senhora com uma bata branca, esses choros vão acabar. Ela vai pôr fim a isto. Lá, não há lugar para estes choros de menino.

Aos cinco anos, dona Glória apontou-me uma grande verdade. As professoras, que vestiam batas brancas, assutavam. Sempre julgou que a obrigação para uma professora vestir uma bata branca era de impor respeito e estatuto igual ao de uma rainha de colmeia insubordinada.

No meu primeiro dia de aulas, bem cedo, o meu irmão bateu a porta da nossa casa e, no único degrau do lado de fora, baixou-se e limpou-me um dos sapatos. Ajeitou-me a mala nas costas e agarrou-me a mão. Não me levava à dona Glória, ia-mos em passo acelerado em caminhos diferentes do habitual. Sem troca de palavras, pelas ruelas, a caminho do primeiro dia de escola, só ouvia a respiração e o bater do coração que martelava mais forte do que nos outros dias todos. Recordo-me da minha primeira mala, dos meus livros novos, dos cadernos sem letras e sem vincas nas esquinas e do cheiro que vinha do interior do meu porta-lápis. Desse dia o meu irmão só se lembra dos meus sapatos.

No primeiro dia de escola, a verdade de dona Glória revelou-se. Entrou na sala uma senhora muito alta de cabelo ondulado a raspar numa bata branca. Uma bata branca. Com pressa, como quem tem muita coisa para fazer, saí do lugar que me foi imposto por uma senhora gorda e orientadora. Chamava-se Funcionária, lembro-me dela o ter dito.

Temia aquela sala, aquelas cadeiras e aquela parede negra, os tacos levantados e dos peitorais das janelas enfeitadas com flores mortas.

Chorei. Gritei pelo meu irmão e quem se aproximou de mim foi a senhora de bata branca. Muito antes de ter forças para fugir fui agarrado. Haviam muitos meninos e meninas a olharem para mim, não os conhecia, juro que não os conhecia e, mesmo assim, insistiam em olhar para mim.

Os braços da professora abraçaram-me. Numa das pausas de pedido de silêncio, disse-me ao ouvido, quase em beijo que ali iria aprender a escrever e a ler as minhas próprias histórias. Lembro-me que, no meu primeiro dia de escola, não queria ser abraçado pela mulher que se vestia de branco para manter respeito, não queria nenhuma história minha nem a de ninguém. Queria a minha mãe ou a outra que eu sempre soube que não era minha.

Fui sentado no chão, no fundo da sala, dias e dias com brinquedos e construções das difíceis, enquanto o meu irmão assistia fora da sala, num lugar onde eu o visse. Não tinha doces nem beijos, mas oferecia-me, entre as flores mortas da janela, um sorriso. Sossegava-me como estar sentado no chão.

Os outros meninos aprendiam a ler e a escrever num compasso picado, marcado pela cana na mesa da abelha branca.

Eu, ocupava-me com as montagens e desmontagens e, quando tinha tempo para aquele côro de sé velha, desenhava os números e as letras com as construções sem abrir o bico, não fosse alguém badalar à entidade suprema que eu deveria ir para uma secretária por saber ler e escrever.

Anos depois escrevi esta história pela fórmula aprendida na minha primeira escola. Prometo que em breve a leve num caderno novo, sem os cantos dobrados e a leia em voz alta à senhora da sala, já que à dona Gloria é tarde para contar.

Quanto à minha mãe, a mãe dos beijos e dos doces, essa, sempre soube esta história sem nunca a ter lido.

3 comentários:

Anónimo disse...

Este poderia ser um possível relato do meu primeiro dia de escola.
Revejo-me. Adorei. Parabéns pelo texto.



GIL

Anónimo disse...

O meu primeiro dia de escola não foi assim... provavelmente seria um dos muitos meninos que estavam na sala de aula.

É um texto, de facto, muito bom.

Parabéns!

Laura disse...

Fantástico...

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